Traumas neurológicos, se não tratados de forma imediata, podem trazer sequelas irreversíveis. No entanto, o trabalho incansável de uma equipe de profissionais e a força de vontade de pacientes e familiares é capaz de promover uma melhora significativa nesses quadros. No meio de tudo isso, uma nova ferramenta surge para impulsionar o tratamento: o computador.
A utilização de tecnologias na reabilitação de pacientes com sequelas neurológicas já ocorre há bastante tempo e envolve todo equipamento, modificado ou feito sob medida a fim de melhorar suas habilidades funcionais. A professora do curso de Terapia Ocupacional (TO) da Universidade de Fortaleza (Unifor) e mestre em Distúrbios da Comunicação Humana, Ana Paula Braga, cita que a escrita é um dos recursos mais utilizados para melhorar a comunicação do paciente que tem a fala comprometida. Dependendo de suas condições de comunicação, pode utilizar softwares e comunicadores com voz sintetizada e gravada ou pranchas de comunicação.
Se o computador já era uma realidade no trabalho de terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, a novidade surge com a utilização do recurso da Internet - redes sociais e desenvolvimentos de blogs - a fim de não só desenvolver a parte cognitiva do paciente, quanto para reinseri-lo socialmente. A atividade, ainda em experiência, tem sido realizada por Elaine Studart, fonoaudióloga há mais de 22 anos.
A ideia surgiu durante o Curso de Docência no Ensino Superior, na Universidade Federal do Ceará (UFC), onde Elaine teve mais contato e aprendeu a utilizar novas mídias. A partir daí criou seu próprio blog - Fonoaudiologia e Comunicação -, voltado para a prática da especialidade. A experiência, que começou sem grandes pretensões, gerou excelentes frutos.
Superação
Quando Osmundo Rebouças, 68 anos, viu o blog de sua fonoaudióloga, imediatamente sinalizou: "Quero um também". Economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), PHD em Harvard, ex-professor da Universidade de São Paulo (USP) e deputado federal, estava impossibilitado de trabalhar e de realizar várias atividades por conta de um AVC isquêmico ocorrido em fevereiro de 2010. Como grande parte dos pacientes, começou a ficar deprimido. Foi então que encontrou na internet, além de um estímulo, uma forma de desenvolver leitura, escrita e de voltar ao trabalho.
"Ele era muito ativo. Quando me pediu para fazer um blog, passamos um tempo pensando como seria. Criei o layout e o ensinei a postar textos e vídeos. Hoje, ele faz tudo sozinho", diz a fonoaudióloga Elaine Studart. Ela conta que, quando começou a tratar Osmundo, ele tinha fraqueza nos músculos e não conseguia coordenar pensamento e fala.
Após um árduo trabalho de TO, fisioterapia e fonoaudiologia, hoje mantém uma vida praticamente normal. Faz aulas de Pilates, dirige e realiza todas as suas atividades sozinho. A única dificuldade que possui é na articulação das palavras, ainda de difícil compreensão. Apesar disso, o economista não para de falar um só instante, e em seus momentos de lazer, se arrisca até a cantar em karaokês.
Elo de ligação
O uso do computador começou de forma simples, a partir da elaboração de palavras e frases e, posteriormente, da análise de textos e reprodução de interpretações. Elaine relata que, em pouco tempo, Osmundo Rebouças foi tomando gosto e criando artigos cada vez mais elaborados. Antes desacreditado pelos médicos, o paciente evoluiu de forma inesperada.
São muitos os benefícios do emprego da internet nesses casos. "Além de preencher o tempo, o paciente pode ampliar seu círculo de amizades e derrotar a solidão. O contato com a tecnologia faz com que ele volte a se sentir produtivo e inserido socialmente, produzindo, criando e obtendo novos conhecimentos", explica a professora do curso de TO da Unifor e mestre em Psicologia, Elcyana Bezerra Carvalho.
Mais do que outros meios de comunicação, o computador permite que os pacientes neurológicos experimentem uma excelente adaptação às dificuldades visuais, auditivas e motoras, próprias dessa patologia.
Com informações do Diário do Nordeste.
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